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23/06/2026

O Beijo


 Eu acho que os beijos, são dados na boca,
porque é de onde brotam as palavras
Se eu te beijasse a ponta dos dedos, estaria buscando uma carícia,
Se te beijasse a sola do sapato, estaria buscando um caminho;
Se te beijasse as pálpebras enquanto dormes, estaria pedindo permissão para entrar 
nos teus sonhos, mas estou te beijando os lábios, porque quero
ouvir as minhas palavras sairem de ti;

Outra vez...

Se te beijasse a planta dos pés, buscaria um passo em falso
Se te beijasse a parte interna do cotovelo, buscaria teus esconderijos
Se te beijasse a sombra, não saberia o que busco, mas estaria tão perto...
Se te buscasse esta noite, beijaria cada estranho até te encontrar;

Outra vez...

Se eu te beijasse, seria algo escorregadio sobre uma tela de carne que
transborda e se espalhe pelas vigas da minha casa, subiria
escorregadia por um muro separado a pele da carne, que se injeta em
uma estrutura impessoal chamada nome,
Estaria consumida antes mesmo de abrir os lábios, se te beijasses
E não pudéssemos fazer nada por esta morte, por esta morte

Por isso...me mantenho em silêncio,em silêncio, atenta, consciente, alerta, alerta,
se por acaso, se por acaso houver indícios de encontrar o ponto médio 
entre os muros onde não nos machucamos,
onde só nos damos conta de até onde o beijo nos leva,

antes que chegue a raiva.

@ crawford_marta

22/06/2026

A arte de falar com os olhos


 Há olhares que atravessam.

Outros repousam.

Alguns chegam como quem volta para casa.

E existem aqueles raros, quase milagrosos, que reconhecem em você algo que nem você sabia que existia.

Eles enchergam o avesso, o que vibra quieto, o que lateja escondido.

Esses olhares revelam.

Quando dois olhos se encontram do jeito certo, o tempo se curva. As horas balançam como folhas presas ao vento. O corpo tenta fingir normalidade, mas a alma denuncia o descontrole, abrindo portas que você pensou ter trancado para sempre.

É um convite mudo, uma confissão luminosa, uma poesia que se escreve sozinha sem precisar de papel.

A verdade é que ninguém mente com os olhos.

Eles carregam a memória do que te partiu e a centelha do que ainda pode te curar.

Cada brilho conta uma saudade. Cada sombra abriga um medo antigo. Cada desvio guarda uma história que ainda dói. E mesmo assim, teimosamente, eles continuam tentando dizer o que você tenta esconder.

Falar com os olhos é uma arte delicada. É tocar o outro sem encostar. É anunciar presença sem interromper o silêncio. É murmurar um desejo no intervalo de um piscar. É o tipo de poesia que nasce sem caneta, mas que deixa marca de tinta eterna na alma de quem recebe.

E se um dia você encontrar um olhar que te lê como se já soubesse o capítulo inteiro, cuide. É raro. É forte. É quase perigo.

Mas é também a forma mais bonita de ser visto no mundo.

@poesianua

04/01/2026

Livre

 




Livre

Houve um tempo em que liberdade parecia distância.
Hoje eu sei: liberdade é presença sem prisão.

É caminhar sem precisar provar nada,
sentir sem pedir permissão,
ficar — ou partir — por escolha, não por medo.

Ser livre é quando o afeto não pesa,
quando o silêncio não dói,
quando o outro não ocupa o lugar que é meu.

É respirar fundo mesmo quando o mundo aperta,
é não precisar de atalhos emocionais,
é caber inteira dentro das próprias decisões.

Ser livre não é ausência de amor.
É amor que não exige sacrifício de si.

E talvez a maior liberdade que exista
seja essa:
sentir profundamente
e ainda assim permanecer de pé,
lúcida,
em paz com o que foi
e aberta apenas ao que pode ser.

Texto: Adriana Oliveira

Feliz 2026!